quinta-feira, dezembro 31, 2020

No pulsar de um relógio ao mesmo tempo visceral e universal,
sentimos a sede pelo que chega.

Cansados de nossa própria carcaça,
juntamos força para digerirmos a nós mesmos antes da meia-noite.

O líquido para ajudar a descer e nada sobrar.
Que fique apenas o que precisamos nos tornar.


Anna Lucena

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Este texto é um agradecimento à Anna que nunca teve coragem de apagar este blog por mais deprimente e vergonhoso que ele tenha se tornado ao longo desses 10 anos.
Que experiência incrível poder visitar o meu coração de adolescente. Que bom que o tempo passa.
Com alguma bagagem de vida e um diploma de Letras, me permitirei acolher essas lamentações exageradas da minha adolescência; reconhecer que essa tristeza toda me deu a sensibilidade que eu precisava para começar a me expressar pela escrita; e entender que a insegurança sempre esteve comigo, mas agora eu consigo discernir com mais nitidez quando é ela que fala dentro da minha cabeça.
Dez anos depois, continuo escrevendo. Ainda tem tristeza, mas ela vem acompanhada de outras emoções, outros sentimentos e uma boa dose de racionalidade também. Ela se estende a questões maiores do que eu. Ela passou por terapia e por situações que exigiram mais maturidade. Ela não é mais um ser estranho e indesejado vivendo dentro de mim.

Decidi retomar o blog e reviver a sensação de registrar o que parece importante. Deixei a maioria das postagens anteriores, afinal, é preciso honrar a Anna do passado. Valeu, Anninha. Para de chorar. Cê é show.

terça-feira, junho 29, 2010

Blog estagnado, como minha vida.

Eu não seria uma boa escritora. Para isso, teria de viver a base de remédios que inibam a ação da endorfina, dopamina, serotonina e outras "INA's" causadoras de felicidade artificial, simplesmente porque eu só tenho vontade de escrever quando me sinto mal, não só mal: quando me sinto no fundo de um poço, não um poço: uma fossa. Eu odeio me flagrar nesta situação deplorável de vomitar o que sinto num post, ainda mais pelo fato de este blog assemelhar- se a Chernobyl... vazio e tóxico, mas talvez algum infeliz possa se identificar com o que escrevo e se sinta melhor, ou mais miserável. Não tenho motivos palpáveis para reclamar. Pelo contrário, minha vida é ótima vista de fora: me encontro numa situação plenamente confortável. O problema emana de dentro do meu corpo, da minha cabeça, dos meus pensamentos e da vontade inexplicável de desaparecer. Não vou escrever incessantemente sobre os meus sentimentos, que fique claro, apenas, que não estou feliz. Para não ser um post absolutamente inútil, uso como referência o Jack, o fígado e rins do Jack, a vida desperdiçada do Jack. Sim. Clube da Luta. Quando me lembro dos discursos eloquentes de Tyler Durden, me sinto profundamente envergonhada, porque [contém spoilers] eu acho que sou exatamente o tipo de pessoa que precisa desenvolver uma segunda personalidade que me dê o tapa na cara que eu preciso levar para acordar na vida. Eu sou a vida latente da Anna. Ninguém me impede de fazer nada, talvez esse seja o problema, talvez eu precise de um obstáculo a transpor. Eu sou a cabeça cansada da Anna. Eu não quero tocar o foda-se pra nada, eu só quero atingir algum dos meus objetivos, fazer um gol (a copa do mundo contamina nossas mentes), terminar alguma coisa. Tudo isso seria possível se eu tivesse coragem. Eu não tenho coragem. É como se nada valesse a pena. E mesmo tendo consciência de tudo isso, ainda assim, é impossível agir! Eu preciso de algum maluco que jogue ácido na minha mão e me faça ver que eu vou morrer um dia? Eu perco tanto tempo pensando em como minha vida não vai pra lugar nenhum, que não sobra tempo pra tornar a vida menos absurda. Ou pra você é fácil viver ciente de que a morte se aproxima e que talvez não aconteça porra nenhuma quando o seu coração parar de bater, e que todos os seus diplomas, suas conquistas, sua dedicação... tudo o que você está fazendo ou está tentando fazer não vai servir pra absolutamente nada quando você for um monte de carne putrefando? Acabei escrevendo apenas devaneios de desabafo e não sinto mais vontade de escrever nada. FIM.

quarta-feira, maio 06, 2009

sábado, abril 12, 2008

Seria fabuloso o destino dos gestos e palavras?


Amélíe apresenta-se como música a nós. Primeiro, cativa todo o interesse que pode com algo apenas instrumental, acompanhado de imagens que nos levam a lembranças da infância. Sabe quando, ao ouvirmos determinada nota em uma música, nos lembramos de outra? Esse é o momento em que somos apresentados às outras personagens do filme, com seus pequenos detalhes e manias. Na metade da música, já estamos familiarizados, cantando junto. Amélíe torna- se alguém que queremos conhecer, abraçar, convidar para tomar um capuccino na lanchonete, talvez. Ao final, sentimos vontade de voltar à música, e se possível, voltamos.
Amélíe não é interessante somente por seus pensamentos ou suas incríveis idéias. Cada olhar, cada movimento da face e das mãos que Aundrey Tautou concretizou de Amélíe são marcantes. Seu próprio nome é expressivo!
Mas, e nós? Na vida real, todos também temos nossas peculiaridades, características curiosas às quais tentamos fermentar cada vez mais, para não sermos mais alguns reles habitantes do mundo. A verdade é que, na vida inteira, tentamos criar situações que favoreçam nossas próprias personalidades. Amélíe gosta de quebrar a casca do creme brullé com a colher. Eu gosto de passar as bordas das páginas de livros no meu nariz rapidamente, fazendo um “ventinho” leve nos meus olhos. Provavelmente, você tem uma mania suficientemente distinta das atitudes mais comuns.
Os mínimos costumes, muitas vezes, evidenciam a própria psique, que chama ainda mais atenção quando conhecemos alguém: mesmo que não haja características em comum, procuramos nas outras pessoas algo que marque presença, algo que, por menor que seja, nos faça lembrá-los. A capacidade do bom humor é muito divulgada no filme discutido. E não seria essa a qualidade que mais nos atrai? A habilidade de fazer rir, com frases inteligentes ou mesmo dementes, é muito bem vinda, tanto na narrativa fictícia de Amélíe quanto nos relacionamentos humanos da realidade. Além desse modo de conquistar os outros, encontramos milhares de estilos diferentes, às vezes até a melancolia cativa quando está em seu auge poético. Além disso, os grupinhos estereotipados que estamos acostumados a ver na juventude estão se dissipando com o passar dos tempos. As “patricinhas”, os “mauricinhos”, os “playboys”, os “Nerds” e todos os demais estão dando espaço a outros grupos menos exigentes. Isso porque o mundo definitivamente não é imutável em nenhum aspecto, então os que não se enquadram em grupo algum nem são adeptos das “modinhas” têm muito mais a oferecer em questão de essência e conteúdo, já que não usam uma certa afinidade como justificativa para não progredir.
Nossa heroína, Amélíe sempre fora sozinha no mundo, não tinha o carinho devido de seus pais, nem contato com outras crianças, nunca soube se relacionar com outras pessoas. Ainda assim, criou uma personalidade generosa e criativa que consegue fazer as cores vermelho e verde entrarem na mente e fazerem um macarrão com queijo ralado na memória, cada vez que fechamos os olhos.
São raras e apaixonantes as figuras como Amélíe, que vêem, onde ninguém olha, a beleza e a feiúra do mundo. E quando atingem o padrão subjetivo de qualidades que alguém pode ter aumentam cada vez mais nosso fascínio. Pessoas interessantes não querem conquistar a todos, somente a mínima parcela de gente que as encanta. Por isso, apesar de tudo, a melhor coisa a fazer é usar de toda a autenticidade, não fingir a luz nem a escuridão, ser apenas a sala decorada à vontade, esperando que as visitas cheguem.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Morte e Vida, personagens principais de um livro sem nome.

Sabe, eu estou lendo um livro chamado “A Menina que Roubava Livros”, de um rapaz muito sensível, chamado Markus Zusak. Uma coisa peculiar sobre esse livro, é que a narradora é nada mais, nada menos que uma senhora conhecida como Morte. O que é muito interessante, porque quem já leu os quadrinhos do Maurício de Sousa ou já viu Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica tem uma referência para imaginar a personificação da morte. Aquela criatura esquelética (literalmente), de capa preta e longa e aquele capuz sombrio. Normalmente, tem também aquele jeito intelectual e com a experiência de todos os humanos da terra. Enfim, é uma figura metida a sabichona que te carrega pras profundezas misteriosas da morte. Mas surgiu o seguinte questionamento na minha cabeça: E a vida? Sim, o contrário de morte, pelo que sabemos. Quem é ela? Será que está escondida nas nossas dúvidas sobre o sentido da vida? Será que é um trilho de trem? Será ela? Será ele? Muito se escreve sobre a vida, muito se pergunta. E muito se pergunta sobre a morte, nada se sabe sobre ela, ao menos, nada certo e concreto. Porém, a morte tem uma representante estilosa nos quadrinhos, filmes etc. A Vida, não. E cá estou tentando desenhar o retrato da Vida. Mas não sei se é bonita, não sei se se veste bem. Não sei se ela usa roupas. Nem se gosta de si mesma. Será que ela lê muito? Será que vê desenhos animados? Difícil imaginar uma Dona Vida que represente todas as vidas que existem, talvez por isso, não haja uma Dona Vida. Será que ela carrega os seres para as profundezas misteriosas da vida, então? Ahhhh, não sei, mal consigo imaginar uma Dona Vida que represente só a minha existência! Mas, provavelmente, ela teria fases e metamorfoses, como borboletas, ou sapos. Não sei. Pouco entendo deste assunto. Talvez a vida seja o ar que respiramos, ou a luz que nos permite saber o que tem a nossa volta. Talvez seja impossível desenhar a vida numa coisa só, assim como fazemos com a morte. Ela mesma não deve ser muito satisfeita com sua aparência. A vida é uma mistura de tempo e espera e dor e sonhos e marcas e casquinhas de ferida e lugares e tralhas que não temos coragem de jogar fora e conceitos e ilusões e sentimentos e lágrimas e sorrisos. A vida é um traço. É um susto que se estende. É um caminho para cada alma. Ou talvez não seja nada. A vida é um traço de susto que se estende pelos caminhos. Um caminho tracejado no susto... hmmm... A vida é uma folha de papel em branco. Prontinha pra ser rabiscada. E depois dada de presente. Pra Dona Morte. Amém.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Alguma coisa sobre decisões...

Eu vejo os passos rápidos nas calçadas As rodas obedientes no asfalto Os tropeços nas escadas As vozes se confundindo Os gritos competindo E eles não sabem que eu sei Por isso continuam sorrindo Fingindo que um sorriso despista Mas depois de tanto tempo Perdendo o tempo pelo ar, vendo o mundo Eu descobri que de manhã Quando o sol bate na gente e grita bom dia Os passos começam a se arrumar E a noite, quando o sol fica branco e furado Os passos voltam pro mesmo lugar E antes de o sol voltar, Os pensamentos ficam a vagar Sem rumo, sem se importar. Por isso, um sorriso, na certa Pode até enganar Mas olhos sonhadores sempre me avisam Quando os pensamentos noturnos voltam ao lar. Passos, pessoas, eu sei onde eles moram Sei dos carros, das rotinas Dos erros, das esquinas. Sei que ganham, sei que morrem. Que perdem, que escorrem. Mas os olhos jamais mentem São cruelmente sinceros quanto à dor de cada um O amor de cada um, todos os pensamentos. Aqueles que fazem os passos mudarem de direção Correrem, chutarem. Os olhos e os passos. Os pensamentos e o tempo. As pessoas e os sentimentos. Eu posso ver quem faz os meus passos.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

2007

Esse ano teve cara de de que pra você? Bom, pra mim, ele teve cara de "nada demais". Não, não estou subestimando o ano de 2007, afinal, foi um ano a mais em nossas vidas. Mas tirando algumas intrigas escolares e algumas pessoas incríveis que eu conheci, não houve grande mudança além de uns quilos que ganhei. Estou esperando esse 2008, ano do rato, ansiosamente pra dar toda a minha intensidade deixada guardadinha em 2007. Como encarar o ano novo? Como uma plaquinha que limita o passado, aquelas coisinhas que nós chamamos de lembrança e denominamos ano passado? Talvez como uma nova chance para nós mesmos, uma chance para fazermos exatamente o que prometemos no ano anterior. Ah, os humanos são engraçados, dão nome ao tempo, limitam o tempo. Não que a organização não seja necessária, mas você já pensou em como os nomes dos meses e dos dias mexem com nossas vidas? "Meu Deus, ainda é dia 20 e meu dinheiro acabou", "Droga, estamos em maio e eu não perdi um quilo pras férias". Cá estou escrevendo um texto pra fechar o ano de 2007, faltando 2 horas e meia pra entrar 2008. Vai ser um lindo ano. E eu vou fazer de tudo pra que isso aconteça. Feliz 2008 a todos. Meias novas brancas, calcinhas cor- de- rosa, lentilhas, três uvas suculentas e sete ondas bem puladas a todos.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Que bagunça!


Bem, hoje eu não postarei uma poesia. Minha mente está numa bagunça enorme, ou uma bagunça enorme está na minha mente. Não sei! Quero contar uma experiência.
Eu saí de uma prova do colégio de tarde, sabendo que ia cair um pé d'água, mas tentei fugir da chuva indo bem rápido, não adiantou absolutamente nada. Uns trinta metros depois que eu saí a chuva começou a cair, e eu juro, foi muito rápido o período entre o chuvisquinho e queda do céu. Então, eu senti aquelas primeiras gotas de chuva fria batendo no meu rosto e o óculos ficando embaçado. Em poucos minutos eu estava ensopada, cega e vulnérável a um atropelamento, mas eu pensei "adoro chuva, só se vive uma vez, não vai doer." e eu estava certa! Não sei explicar a tara do ser humano pela mistura de sensações boas mais sensações terríveis mais adrenalina. Só sei que lá estava eu cega, abrindo os olhos só pra enxergar as luzes dos faróis, o All Star transbordando, mas aquele sabor frio da chuva me empurrava e só me dava mais vontade de correr. As pessoas me olhavam de dentro dos carros, de dentro dos apartamentos e minha vida nunca foi tão boa como naquele momento. Não, não é o primeiro banho de chuva que eu tomo de bicicleta, mas esse foi especial. Foi um dia especial, aliás um dia especial depois de um dia especial. O que é muito raro! Pelo menos pra mim, quando vem um dia muito feliz, normalmente, o dia seguinte é sem graça. Enfim, foi a mistura de sensações boas e ruins mais gostosa e embriagante. Tá, não resolveu meus dilemas- e acreditem, são muitos- mas são esses momentos que definem o que é viver intensamente. Parece que o mundo pára de funcionar e você pode olhar pra dentro de si, pra nenhum outro lugar, não há preocupação.
Empolguei. Muito. E adoro ponto final também!




P.S.: Oi, Ivan! Eu sei que você é o único a ler isso! hahah

segunda-feira, outubro 22, 2007

Dias e dizeres.


Meus momentos têm sido palavras comuns
Palavras que sempre dizemos
Quando perguntam se estamos bem.
Quando dizemos “tudo certo”
E rimos de desespero
E não temos ninguém por perto.
E choramos por dentro.
Discreto.
As palavras bonitas viram fumaça
Ameaçam dizer coisas de amor.
Aguardam e choram
Enquanto eu procuro um guardador
Que, na paz e na guerra
Na sanha e no pudor
Dê sentido à palavra bela
Que faça dela
Uma pétala de dor.
Ainda encontro palavras complicadas
Que insisto em tentar definir
Para que definir uma lágrima
Se ainda posso fingir?
É que a lágrima se faz uma dúvida
A tentar me destruir
E atenta procuro algo
Algo ou alguém que me faça sorrir
Porque enquanto defino o sorriso
Engano o caos da solidão
Faço a dúvida dormir.

(Anna Lucena)

sexta-feira, outubro 19, 2007

Voltando a sentir...


Quero cantar minha própria canção
Desdizer o que disse
Batucar nas palavras
Pra fazer melodias de pranto
Na morte do dia, na marquise, eu canto.

Eu bem que disse, e em vão
Maldisse as paredes do quarto
Maldito quarto, guardador de segredos
E sonhos
E mortes de dores
De dores mortais.

(Anna Lucena)

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Não se sabe quem é...


Todos os dias do ano,
Eu só preciso de um abraço que me encoste,
Um sorriso dado de graça,
Um carinho que eu goste.
Todos os dias da semana
Eu só quero uma afrouxada na gravata
para não enlouquecer
Um canto para me esconder
das luzes forte de néon
que entram pela janela
E iluminam as marcas de batom.
As fúteis marcas no meu colarinho,
Vermelhas, carentes e brilhantes,
só me fazem lembrar que estou sozinho.
Quando a luz vai embora
Eu posso sentir sua respiração.
No apartamento vizinho uma criança chora
E tira minha atenção.

Não sinto mais a pedra no sapato,
mas o casal no carro ao lado
Bloqueia minha visão.
As palavras de amor cuspidas do rádio
inutilizam minha audição.
A música vinda daquela sala
Eu não sei o que diz
Mas é de mim que ela fala.

E eu procuro em todo lugar,
Não lábios de martíni para beijar,
Mas uma marca de batom que vá me saciar.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Nada como um dia após o outro...



Suponhamos que alguém lê o que está aqui escrito...
Por que escrever? Minha intenção não é mostrar o que se passa pela minha mente e muito menos, mostrar um possível talento pra escrever textos líricos. Além do mais, não confio muito no meu potencial.
Então, pra quê, diabos, perder meu tempo aqui?
Será um tipo de desabafo subconsciente? Não sei, mas é agradável escrever aqui. Nem sei mais qual era o objetivo do blog. Talvez a prática da escrita...
Enfim, não sei o motivo, mas deve ser um dos bons.

Quanto ao título, essa foto me passa essa mensagem, não sei porque também.
Carpe Diem.

domingo, janeiro 21, 2007

En tus sueños...



Precisando de mais alguma coisa pra me segurar... pra poder tirar os pés do chão e esquecer que eu posso tocar a realidade.

domingo, outubro 15, 2006

Malamados

Imaculada mulher de olhos inchados,
Sustos de couro e cabelos puxados,
Marcas nas costas e gritos na entrada,
Palavras cuspidas no vão da escada.

Por mais que eu não veja a ferida
Por baixo da saia marrom comprida,
Cumpro minha função de admirador
Então esquecida pelo seu antigo amor.

Garrafa virada, imagem deformada,
Privada derramada de justiça enclausurada,
Apelos de perdão, baseados em nada.

Assisto do espelho o golpe calado,
Amaciado com o sossego recém chegado,
Chagas de um amor contrariado.

sábado, agosto 26, 2006

Perspectiva

Guarda teu toque,
Que meu toque se fez escasso,
Mas não desista de mim.
Não dê nem mais um passo.

Use uma chave de prata
Para arrancar-me de seu peito.
E escolha uma de ouro
Para não me fazer desfeito.

Quando tiver lapidado
As coxas, os olhos de mágoa,
Flagre-se sobre a areia
Tocando os lábios n’água.

Quando eu negar-lhe um beijo,
Arranhe a pele calada.
Largue os livros sobre o chão
E mantenha a fome trancada.
Enquanto me cultua,
Guarda-me em demasia.
Eu escarneço de sua carência
E finjo tudo como ia.

Autora: Anna Lucena

sábado, agosto 19, 2006

Soneto de mentira

Os meus momentos de contentamento
Passam incompletos avisando a próxima ilusão.
Minhas virtudes não são tão distintas quanto meus defeitos.
Por isso, as vejo com mais dificuldade.

Meus incompletos momentos de felicidade
Passam como o ar que estou expirando.
Completas só são minhas dúvidas
E minhas dores.

Talvez seja mais fácil do que eu estou levando.
Jogar esse peso para cima só não é possível porque
Esse teto está muito baixo.

É, eu devo ter me enganado
Achando que o destino faz a coerência
Quando os sentimentos fazem o destino.

Autora: Anna Lucena Bezerra

A carta na mochila


Eu sei que hoje você nem olhou pra mim e nem falou comigo na hora do almoço, mas agora eu sinto o quanto você me faz falta e chega a doer quando eu lembro de tudo. Ninguém me disse que o sol pararia de nascer para mim, e eu nunca escutaria. Todo o meu corpo estava voltado para você, como numa oração mulçumana. Eu só pude descobrir quando o sol estava morrendo e as lágrimas me cegando e a lua chegando. Mas eu já não podia ver a lua, ela deve ser contemplada por quem ainda tem alma.
“Quando nós nos casarmos” você disse e eu acreditei. É falando do passado que encontro sua sensibilidade, quem dera achasse também seu amor e todos os dias que vivemos gravados numa fita e assistidos novamente no vídeo cassete de casa. Um sofá de dois lugares e as persianas fechadas para a luz não fazer reflexo na televisão eram tudo o que nós precisávamos naquele tempo.
Eu sei também que esse sentimento oculto não consegue mais fingir que não existe, ele só quer ter o que tinha embaixo da árvore do estacionamento da escola. Aquele colóquio bobo se escondendo do sol que agora se esconde de mim, devia ter aproveitado enquanto podia, mas pulei a parte de não precisar de você, mesmo te amando. Regra estranha essa do amor, me furtar o direito de ser sincero.
Agora, eu peço humildemente, que me entenda. Largue sobre a cama, as palavras de amor que você ainda carrega, leia todas e marque as mais importantes, o resto você pode vender, ou doar a instituições de caridade. As que você marcou, leia novamente e outra vez, nunca pare de lê-las, talvez assim, dê certo para nós dois.

Autora: Anna Lucena Bezerra