sábado, abril 12, 2008

Seria fabuloso o destino dos gestos e palavras?


Amélíe apresenta-se como música a nós. Primeiro, cativa todo o interesse que pode com algo apenas instrumental, acompanhado de imagens que nos levam a lembranças da infância. Sabe quando, ao ouvirmos determinada nota em uma música, nos lembramos de outra? Esse é o momento em que somos apresentados às outras personagens do filme, com seus pequenos detalhes e manias. Na metade da música, já estamos familiarizados, cantando junto. Amélíe torna- se alguém que queremos conhecer, abraçar, convidar para tomar um capuccino na lanchonete, talvez. Ao final, sentimos vontade de voltar à música, e se possível, voltamos.
Amélíe não é interessante somente por seus pensamentos ou suas incríveis idéias. Cada olhar, cada movimento da face e das mãos que Aundrey Tautou concretizou de Amélíe são marcantes. Seu próprio nome é expressivo!
Mas, e nós? Na vida real, todos também temos nossas peculiaridades, características curiosas às quais tentamos fermentar cada vez mais, para não sermos mais alguns reles habitantes do mundo. A verdade é que, na vida inteira, tentamos criar situações que favoreçam nossas próprias personalidades. Amélíe gosta de quebrar a casca do creme brullé com a colher. Eu gosto de passar as bordas das páginas de livros no meu nariz rapidamente, fazendo um “ventinho” leve nos meus olhos. Provavelmente, você tem uma mania suficientemente distinta das atitudes mais comuns.
Os mínimos costumes, muitas vezes, evidenciam a própria psique, que chama ainda mais atenção quando conhecemos alguém: mesmo que não haja características em comum, procuramos nas outras pessoas algo que marque presença, algo que, por menor que seja, nos faça lembrá-los. A capacidade do bom humor é muito divulgada no filme discutido. E não seria essa a qualidade que mais nos atrai? A habilidade de fazer rir, com frases inteligentes ou mesmo dementes, é muito bem vinda, tanto na narrativa fictícia de Amélíe quanto nos relacionamentos humanos da realidade. Além desse modo de conquistar os outros, encontramos milhares de estilos diferentes, às vezes até a melancolia cativa quando está em seu auge poético. Além disso, os grupinhos estereotipados que estamos acostumados a ver na juventude estão se dissipando com o passar dos tempos. As “patricinhas”, os “mauricinhos”, os “playboys”, os “Nerds” e todos os demais estão dando espaço a outros grupos menos exigentes. Isso porque o mundo definitivamente não é imutável em nenhum aspecto, então os que não se enquadram em grupo algum nem são adeptos das “modinhas” têm muito mais a oferecer em questão de essência e conteúdo, já que não usam uma certa afinidade como justificativa para não progredir.
Nossa heroína, Amélíe sempre fora sozinha no mundo, não tinha o carinho devido de seus pais, nem contato com outras crianças, nunca soube se relacionar com outras pessoas. Ainda assim, criou uma personalidade generosa e criativa que consegue fazer as cores vermelho e verde entrarem na mente e fazerem um macarrão com queijo ralado na memória, cada vez que fechamos os olhos.
São raras e apaixonantes as figuras como Amélíe, que vêem, onde ninguém olha, a beleza e a feiúra do mundo. E quando atingem o padrão subjetivo de qualidades que alguém pode ter aumentam cada vez mais nosso fascínio. Pessoas interessantes não querem conquistar a todos, somente a mínima parcela de gente que as encanta. Por isso, apesar de tudo, a melhor coisa a fazer é usar de toda a autenticidade, não fingir a luz nem a escuridão, ser apenas a sala decorada à vontade, esperando que as visitas cheguem.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Morte e Vida, personagens principais de um livro sem nome.

Sabe, eu estou lendo um livro chamado “A Menina que Roubava Livros”, de um rapaz muito sensível, chamado Markus Zusak. Uma coisa peculiar sobre esse livro, é que a narradora é nada mais, nada menos que uma senhora conhecida como Morte. O que é muito interessante, porque quem já leu os quadrinhos do Maurício de Sousa ou já viu Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica tem uma referência para imaginar a personificação da morte. Aquela criatura esquelética (literalmente), de capa preta e longa e aquele capuz sombrio. Normalmente, tem também aquele jeito intelectual e com a experiência de todos os humanos da terra. Enfim, é uma figura metida a sabichona que te carrega pras profundezas misteriosas da morte. Mas surgiu o seguinte questionamento na minha cabeça: E a vida? Sim, o contrário de morte, pelo que sabemos. Quem é ela? Será que está escondida nas nossas dúvidas sobre o sentido da vida? Será que é um trilho de trem? Será ela? Será ele? Muito se escreve sobre a vida, muito se pergunta. E muito se pergunta sobre a morte, nada se sabe sobre ela, ao menos, nada certo e concreto. Porém, a morte tem uma representante estilosa nos quadrinhos, filmes etc. A Vida, não. E cá estou tentando desenhar o retrato da Vida. Mas não sei se é bonita, não sei se se veste bem. Não sei se ela usa roupas. Nem se gosta de si mesma. Será que ela lê muito? Será que vê desenhos animados? Difícil imaginar uma Dona Vida que represente todas as vidas que existem, talvez por isso, não haja uma Dona Vida. Será que ela carrega os seres para as profundezas misteriosas da vida, então? Ahhhh, não sei, mal consigo imaginar uma Dona Vida que represente só a minha existência! Mas, provavelmente, ela teria fases e metamorfoses, como borboletas, ou sapos. Não sei. Pouco entendo deste assunto. Talvez a vida seja o ar que respiramos, ou a luz que nos permite saber o que tem a nossa volta. Talvez seja impossível desenhar a vida numa coisa só, assim como fazemos com a morte. Ela mesma não deve ser muito satisfeita com sua aparência. A vida é uma mistura de tempo e espera e dor e sonhos e marcas e casquinhas de ferida e lugares e tralhas que não temos coragem de jogar fora e conceitos e ilusões e sentimentos e lágrimas e sorrisos. A vida é um traço. É um susto que se estende. É um caminho para cada alma. Ou talvez não seja nada. A vida é um traço de susto que se estende pelos caminhos. Um caminho tracejado no susto... hmmm... A vida é uma folha de papel em branco. Prontinha pra ser rabiscada. E depois dada de presente. Pra Dona Morte. Amém.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Alguma coisa sobre decisões...

Eu vejo os passos rápidos nas calçadas As rodas obedientes no asfalto Os tropeços nas escadas As vozes se confundindo Os gritos competindo E eles não sabem que eu sei Por isso continuam sorrindo Fingindo que um sorriso despista Mas depois de tanto tempo Perdendo o tempo pelo ar, vendo o mundo Eu descobri que de manhã Quando o sol bate na gente e grita bom dia Os passos começam a se arrumar E a noite, quando o sol fica branco e furado Os passos voltam pro mesmo lugar E antes de o sol voltar, Os pensamentos ficam a vagar Sem rumo, sem se importar. Por isso, um sorriso, na certa Pode até enganar Mas olhos sonhadores sempre me avisam Quando os pensamentos noturnos voltam ao lar. Passos, pessoas, eu sei onde eles moram Sei dos carros, das rotinas Dos erros, das esquinas. Sei que ganham, sei que morrem. Que perdem, que escorrem. Mas os olhos jamais mentem São cruelmente sinceros quanto à dor de cada um O amor de cada um, todos os pensamentos. Aqueles que fazem os passos mudarem de direção Correrem, chutarem. Os olhos e os passos. Os pensamentos e o tempo. As pessoas e os sentimentos. Eu posso ver quem faz os meus passos.