Imaculada mulher de olhos inchados,
Sustos de couro e cabelos puxados,
Marcas nas costas e gritos na entrada,
Palavras cuspidas no vão da escada.
Por mais que eu não veja a ferida
Por baixo da saia marrom comprida,
Cumpro minha função de admirador
Então esquecida pelo seu antigo amor.
Garrafa virada, imagem deformada,
Privada derramada de justiça enclausurada,
Apelos de perdão, baseados em nada.
Assisto do espelho o golpe calado,
Amaciado com o sossego recém chegado,
Chagas de um amor contrariado.
domingo, outubro 15, 2006
sábado, agosto 26, 2006
Perspectiva
Guarda teu toque,
Que meu toque se fez escasso,
Mas não desista de mim.
Não dê nem mais um passo.
Use uma chave de prata
Para arrancar-me de seu peito.
E escolha uma de ouro
Para não me fazer desfeito.
Quando tiver lapidado
As coxas, os olhos de mágoa,
Flagre-se sobre a areia
Tocando os lábios n’água.
Quando eu negar-lhe um beijo,
Arranhe a pele calada.
Largue os livros sobre o chão
E mantenha a fome trancada.
Enquanto me cultua,
Guarda-me em demasia.
Eu escarneço de sua carência
E finjo tudo como ia.
Autora: Anna Lucena
Que meu toque se fez escasso,
Mas não desista de mim.
Não dê nem mais um passo.
Use uma chave de prata
Para arrancar-me de seu peito.
E escolha uma de ouro
Para não me fazer desfeito.
Quando tiver lapidado
As coxas, os olhos de mágoa,
Flagre-se sobre a areia
Tocando os lábios n’água.
Quando eu negar-lhe um beijo,
Arranhe a pele calada.
Largue os livros sobre o chão
E mantenha a fome trancada.
Enquanto me cultua,
Guarda-me em demasia.
Eu escarneço de sua carência
E finjo tudo como ia.
Autora: Anna Lucena
sábado, agosto 19, 2006
Soneto de mentira
Os meus momentos de contentamento Passam incompletos avisando a próxima ilusão.
Minhas virtudes não são tão distintas quanto meus defeitos.
Por isso, as vejo com mais dificuldade.
Meus incompletos momentos de felicidade
Passam como o ar que estou expirando.
Completas só são minhas dúvidas
E minhas dores.
Talvez seja mais fácil do que eu estou levando.
Jogar esse peso para cima só não é possível porque
Esse teto está muito baixo.
É, eu devo ter me enganado
Achando que o destino faz a coerência
Quando os sentimentos fazem o destino.
Autora: Anna Lucena Bezerra
A carta na mochila

Eu sei que hoje você nem olhou pra mim e nem falou comigo na hora do almoço, mas agora eu sinto o quanto você me faz falta e chega a doer quando eu lembro de tudo. Ninguém me disse que o sol pararia de nascer para mim, e eu nunca escutaria. Todo o meu corpo estava voltado para você, como numa oração mulçumana. Eu só pude descobrir quando o sol estava morrendo e as lágrimas me cegando e a lua chegando. Mas eu já não podia ver a lua, ela deve ser contemplada por quem ainda tem alma.
“Quando nós nos casarmos” você disse e eu acreditei. É falando do passado que encontro sua sensibilidade, quem dera achasse também seu amor e todos os dias que vivemos gravados numa fita e assistidos novamente no vídeo cassete de casa. Um sofá de dois lugares e as persianas fechadas para a luz não fazer reflexo na televisão eram tudo o que nós precisávamos naquele tempo.
Eu sei também que esse sentimento oculto não consegue mais fingir que não existe, ele só quer ter o que tinha embaixo da árvore do estacionamento da escola. Aquele colóquio bobo se escondendo do sol que agora se esconde de mim, devia ter aproveitado enquanto podia, mas pulei a parte de não precisar de você, mesmo te amando. Regra estranha essa do amor, me furtar o direito de ser sincero.
Agora, eu peço humildemente, que me entenda. Largue sobre a cama, as palavras de amor que você ainda carrega, leia todas e marque as mais importantes, o resto você pode vender, ou doar a instituições de caridade. As que você marcou, leia novamente e outra vez, nunca pare de lê-las, talvez assim, dê certo para nós dois.
Autora: Anna Lucena Bezerra
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