Guarda teu toque,
Que meu toque se fez escasso,
Mas não desista de mim.
Não dê nem mais um passo.
Use uma chave de prata
Para arrancar-me de seu peito.
E escolha uma de ouro
Para não me fazer desfeito.
Quando tiver lapidado
As coxas, os olhos de mágoa,
Flagre-se sobre a areia
Tocando os lábios n’água.
Quando eu negar-lhe um beijo,
Arranhe a pele calada.
Largue os livros sobre o chão
E mantenha a fome trancada.
Enquanto me cultua,
Guarda-me em demasia.
Eu escarneço de sua carência
E finjo tudo como ia.
Autora: Anna Lucena
sábado, agosto 26, 2006
sábado, agosto 19, 2006
Soneto de mentira
Os meus momentos de contentamento Passam incompletos avisando a próxima ilusão.
Minhas virtudes não são tão distintas quanto meus defeitos.
Por isso, as vejo com mais dificuldade.
Meus incompletos momentos de felicidade
Passam como o ar que estou expirando.
Completas só são minhas dúvidas
E minhas dores.
Talvez seja mais fácil do que eu estou levando.
Jogar esse peso para cima só não é possível porque
Esse teto está muito baixo.
É, eu devo ter me enganado
Achando que o destino faz a coerência
Quando os sentimentos fazem o destino.
Autora: Anna Lucena Bezerra
A carta na mochila

Eu sei que hoje você nem olhou pra mim e nem falou comigo na hora do almoço, mas agora eu sinto o quanto você me faz falta e chega a doer quando eu lembro de tudo. Ninguém me disse que o sol pararia de nascer para mim, e eu nunca escutaria. Todo o meu corpo estava voltado para você, como numa oração mulçumana. Eu só pude descobrir quando o sol estava morrendo e as lágrimas me cegando e a lua chegando. Mas eu já não podia ver a lua, ela deve ser contemplada por quem ainda tem alma.
“Quando nós nos casarmos” você disse e eu acreditei. É falando do passado que encontro sua sensibilidade, quem dera achasse também seu amor e todos os dias que vivemos gravados numa fita e assistidos novamente no vídeo cassete de casa. Um sofá de dois lugares e as persianas fechadas para a luz não fazer reflexo na televisão eram tudo o que nós precisávamos naquele tempo.
Eu sei também que esse sentimento oculto não consegue mais fingir que não existe, ele só quer ter o que tinha embaixo da árvore do estacionamento da escola. Aquele colóquio bobo se escondendo do sol que agora se esconde de mim, devia ter aproveitado enquanto podia, mas pulei a parte de não precisar de você, mesmo te amando. Regra estranha essa do amor, me furtar o direito de ser sincero.
Agora, eu peço humildemente, que me entenda. Largue sobre a cama, as palavras de amor que você ainda carrega, leia todas e marque as mais importantes, o resto você pode vender, ou doar a instituições de caridade. As que você marcou, leia novamente e outra vez, nunca pare de lê-las, talvez assim, dê certo para nós dois.
Autora: Anna Lucena Bezerra
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